*CINEMA: Um século no armário*

Desde quando a palavra “homossexual” foi pronunciada pela primeira vez no cinema, a respeito de um personagem do ator inglês Dirk Bogarde em “Meu Passado me Condena”, ainda no início da década de 1960, uma longa trajetória se cumpriu até que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood concedesse um Oscar a Sean Penn no papel de “Milk - A Voz da Igualdade”, homossexual ativista e defensor dos direitos das minorias, em filme também premiado como roteiro original.

James Franco, que interpreta o grande amor da vida de Harvey, ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Independent Spirit Awards. O Oscar ignorou os méritos de Franco e preferiu indicar, pelo mesmo filme e na mesma categoria, o nem tão brilhante Josh Brolin, na pele do assassino de Milk.

Há apenas quatro anos, o conservadorismo da Academia havia sonegado, injustamente, o troféu de Melhor Filme a “O Segredo de Brokeback Mountain”, do diretor Ang Lee, certamente porque essa excelente produção cinematográfica abordava, sem meios tons, a história de amor entre dois rústicos “cowboys”. Um deles era interpretado por Heath Ledger, ganhador do Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante pela extraordinária caracterização como o Coringa em “Batman - O Cavaleiro das Trevas”.

Roteirista de “Milk - A Voz da Igualdade”, o ex-mórmon Dustin Lance Black teve seu projeto recusado por produtores durante quatro anos. Quando finalmente ele foi aceito pela mesma companhia que distribuiu “Brokeback Mountain”, os diretores Bryan Singer e Oliver Stone, consultados para dirigir a produção, queriam dar ao roteiro um cunho restrito de “thriller” político. Só Gus Van Sant, cineasta abertamente “gay”, aceitou dar ao personagem as características de um homem comum, com defeitos e qualidades, que cresce como ser humano pela tentativa de mudar a sociedade e combater a intolerância.

• Preconceitos do passado.
No passado, o tema do homossexualismo sofreu severos preconceitos por parte de diretores e produtores cinematográficos, chegando mesmo a serem vetadas quaisquer insinuações ao assunto durante a existência do medieval Código Hays de Censura, vigente nos EUA desde a década de 1930 até meados dos anos 1950. Entre outras barbaridades, o referido Código, além da ridícula exigência de obrigar os casais a aparecerem dormindo em camas separadas, proibia qualquer menção à homossexualidade, o que obrigava roteiristas e diretores a se valerem de subterfúgios para mostrar personagens e tramas no gênero.

Um dos exemplos mais conhecidos é o clássico “Gilda”, de Charles Vidor, onde se camufla o relacionamento amoroso entre o milionário Ballin Mundson (George MacReady) e seu “protegido” Johnny Farrell (Glenn Ford), embora os diálogos sejam de claro duplo sentido. Em “Festim Diabólico”, de Alfred Hitchcock, considerado o primeiro filme comercial a ter dois personagens e atores “gays” como atores principais (Farley Granger e John Dall), os censores não se deram conta de que eles formavam um casal, que comete um assassinato apenas para provar a existência do crime perfeito. A história se baseava num fato real e era conhecida por todo o público dos Estados Unidos.

Mesmo depois da amenização da censura, o tema só era abordado de maneira velada, como na famosa cena de “Spartacus”, épico dirigido por Stanley Kubrick, quando o belo escravo Tony Curtis banha seu amo Laurence Olivier. Em “Juventude Transviada”, de Nicholas Ray, o adolescente Sal Mineo beija ternamente o casaco do amigo James Dean. No final do longa “O Segredo de Brokeback Mountain”, Ang Lee faz sutil citação homenageando a referida cena.

As alusões homossexuais das peças teatrais “Um Bonde Chamado Desejo” e “Gata em Teto de Zinco Quente”, ambas da autoria de Tennessee Williams, foram drasticamente suprimidas em suas transposições para o cinema, tornando a trama um tanto confusa para o público. Na primeira peça, a insanidade mental da personagem Blanche Dubois, magnificamente interpretada pela oscarizada Vivien Leigh, advém da descoberta de que seu marido era “gay”, evidência omitida no filme.

• Fama e preconceito.
Os primeiros atores de grande fama a aceitarem fazer homossexuais assumidos na tela foram Shirley MacLaine e Marlon Brando (em “O Pecado de Todos Nós”), este último fazendo um oficial do Exército casado e enrustido, apaixonado secretamente por um belo soldado que, na realidade, deseja a esposa do seu superior. Em “Infâmia”, Shirley MacLaine interpreta uma jovem professora acusada de lesbianismo. É antológica a cena em que Shirley revela à amiga (Audrey Hepburn, a eterna “Bonequinha de Luxo”) ser realmente apaixonada por ela, assumindo, num ímpeto, sua verdadeira identidade sexual. MacLaine bem merecia um Oscar por essa interpretação, mas isso seria impensável nos anos 1960.

Mesmo quando os “gays” começaram a povoar as telas com mais freqüência, quase sempre eram apresentados de forma caricatural, ou, o que é pior, como assassinos (“Parceiros da Noite”), fascistas psicopatas (“O Conformista”), ou truculentos sádicos (“O Sargento”). Geralmente eram personagens promíscuos, drogados, pervertidos ou criminosos.

No plano internacional, entretanto, diretores “gays” como Píer Paolo Pasolini (“Teorema”), Luchino Visconti (“Morte em Veneza”) e, atualmente, Pedro Almodóvar (“Má Educação”), sempre ousaram apresentar personagens com tendências sexuais alternativas, enriquecidos pela poderosa moldura do talento desses famosos cineastas, todos conscientes da importância da Sétima Arte como influenciadora de opinião.

No épico “Spartacus”, de Stanley Kubrick, há uma cena de claras conotações homossexuais, quando o escravo vivido pelo belo ator Tony Curtis dá banho em seu amo Laurence Olivier. Kubrick, notório heterossexual, mas de mente extremamente liberal e sem preconceitos, falou forte exigindo que a cena, com seus maliciosos diálogos, fosse exibida na íntegra. Mesmo assim, suprimiram algumas tomadas de Curtis.

Rock Hudson, homossexual assumido na vida privada, teve que fingir um casamento de fachada para prosseguir sua carreira de protagonista, obrigado pela produtora Universal. Seu amante na época, o também ator George Nader, foi “deportado” para a Europa, onde passou a trabalhar em papéis insignificantes e arruinou sua carreira. No final da vida, ao contrair o vírus HIV, Rock Hudson assumiu a homossexualidade por tanto tempo oculta. Ainda recentemente, o ator inglês Rupert Everett reclamou à imprensa ser sempre discriminado para os papéis de galã, por ser um “gay assumido”.

A fase obscura da censura e os artifícios usados para burlá-la por cineastas e roteiristas, nos filmes de Hollywood, é muito bem retratada no documentário “Celluloid Closet”, já exibido em Fortaleza nas Sessões de Arte coordenadas pelo excelente crítico cinematográfico e promotor cultural Pedro Martins Freire.

• Pecado e remissão.
Quando a Academia de Hollywood finalmente decidiu dar o prêmio de Melhor Ator ao intérprete de um personagem abertamente “gay”, foi preciso que Tom Hanks assumisse (de modo brilhante, ressalte-se) a “via-crucis” de um soropositivo, no filme “Filadélfia”. Havia sempre um castigo pairando no ar sobre a preferência sexual dos personagens.

Embora Harvey Milk pague com a morte a ousadia de suas tendências e afirmações, o que predomina no filme de Gus Van Sant é a força da mensagem, solidariedade e justiça, sempre presente em todo o contexto da narrativa, através de interpretações convincentes e da exposição do preconceito como uma forma condenável de ódio e intolerância. Ao final, sabe-se que o assassino de Milk, corroído pelos remorsos e pelo processo de rejeição a si mesmo, tão característico dos mal resolvidos e intolerantes, suicidou-se alguns anos após cometer seu nefando crime, perpetrado contra dois valorosos defensores da igualdade entre os seres humanos.

Por: Programa EsCâNdALo!




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